sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

UM PAPA, UMA IGREJA E SUA CULTURA


Uma das propostas do tempo é essa: refletir... Devo ter escrito alguns dias atrás numa rede social que sou um “católico cultural”. Confesso ter inovado na expressão e até arriscado-me a críticas duras de quem possua um senso mais restrito.

Apesar de certo distanciamento, indiferentismo, ou quase ateísmo prático, admito a presença de um resíduo de fé, de esperança, representado por um pequeno objeto sacramental, que se carregue consigo, inseparável, o qual simbolize a chama de uma vela acesa, ainda que uma, uma pequenina chama acesa.  A outra chama, impessoal, que está mais para tocha, é a herança cultural católica.  

Um mundo sem Papa deixa toda a gente um pouco apreensiva, abalada, ainda mais com as tempestades solares anunciadas, depois te termos cruzado a linha vermelha de 2012, um pouco de temor apocalíptico faz parte destes dias. No entanto a decisão atípica de um Papa renunciar pegou todo mundo de surpresa. Um Papa pedindo pra sair, que renuncia, que é isso? Fraqueza? Cansaço? Escândalos impertinentes?

“Na Igreja Católica quando se quer algo de novo recorre-se ao antigo”, escreveu o poeta brasileiro Murilo Mendes. Por isso o Papa venera e invoca a memória de São Celestino V, sinalizando seus próximos movimentos. Por mais estranho que pareça a Igreja Católica consegue “ser o que é em constante evolução”. Quando se moderniza, consegue ser profundamente tradicionalista; quando atenta aos sinais dos tempos, fiel às suas fontes. Alguns dirão que estou dizendo pepinos de transformação, que Igreja não muda que nada! O Papa vai ser sempre branco e europeu! Que eu não assisti O Nome da Rosa, e por aí se vai...

Uma das coisas que mais me fascina na I.C. é essa sincronia com o passado, essa bagagem, essa cultura toda acumulada. Onde quase todas as áreas do conhecimento se encontram, História, Literatura, Arte, Administração, Economia, Direito, Política, Teologia, Filosofia, Sociologia, Ciência, Marketing, Publicidade, Assistência Social, etc, onde todas seriam invocadas quando numa discussão fosse intentada uma visão integral do que seja a I.C.

Lamento a grande ignorância de cultura geral que faz como que essa maravilhosa instituição só apanhe e leve pancada nos ambientes acadêmicos. Desde o Ensino Médio, até a graduação vai ter um professor papagaiando que “vocês precisam assistir O Nome da Rosa para ficarem espertos e instruídos”. Lamento que os próprios católicos não se defendam, não tenham lido Vieira, Santo Agostinho, Teresa, Pascal, Chesterton, Chardin, Merton, Mohana, Woods, e passem a vida pensando que todo cristão é otário e burro; que não conheçam bem um Dom Hélder, um Landell de Moura, a Doutrina Social da Igreja, e nunca tenham lido uma carta encíclica.
 
Também não desejo pedantismo, e admito ter lido muito pouco dos ítens citados. Na minha própria concepção de educação emancipadora, a gente não estuda para saber mais, e sim para completar um vazio de ser muito ignorante. Ou seja, pra ser menos ignorante e não engolir tudo que nos regurgitam presunçosamente nossos professores esquerdistas. Uma das comparações que mais gosto de usar é a da Biblioteca. A I.C. é uma coleção de 21 volumes cada um contendo 100 capítulos (menos o nº 21). O professor esquerdista é aquele que vai selecionar do pior livro, o pior capítulo e dizer: isto é a Igreja, isto é a verdade, e suprimir todo o restante.

Bem, eu próprio não passo de uma grande ignorante. Nunca passei do Êxodo em leitura Bíblica, não tenho catecismo no momento. Prefiro julgar menos porque a montanha é altíssima, a vida inteira não daria de responder o que é a Igreja Católica. Só daria para sugerir o que ela não é: medíocre, estúpida e desinteressante. E isso, é o que mantém minha chama acesa.

Ian Reges é professor de Língua Portuguesa e estudante de Economia
ianreges@hotmail.com